sexta-feira, 21 de junho de 2019

Ansiedade...


A ansiedade é algo que, quando incontrolável, é paralisante, conspira contra nós, mas... Como fugir dela? Seu excesso é nocivo, porém, numa medida contida, é algo que nos impulsiona. Tem a ver com sonho, com nossa necessidade de trafegar no tempo e alcançar os marcos de recompensa, alegria e desejo, ou simplesmente transpor e deixar para trás os marcos de dor, tristeza e sofrimento...

Ansiedade... de que as horas, minutos e segundos passem rapidamente, até chegar o momento decisivo, o objeto da espera... E, será de grande alívio, se o segredo selado para o futuro corresponder a nossa expectativa, porém, ainda que haja frustração, libertar-se da ansiedade por sí já é um alívio. A ansiedade está ligada ao tempo, só existe enquanto houver tempo, e evapora no exato momento em que o tempo se alinha com o ponteiro da nossa expectação... Extinguindo-se a ansiedade, abrir-se-āo caminhos para novas ansiedades, que virão... pois tudo que espera-se e ainda não veio, tudo que está encoberto e selado para um tempo vindouro, de segundos a milênios, encarregar-se-á de fundar e alimentar as futuras ansiedades...

Ansiedade… a ansiedade de Daniel envolveu segundos e minutos que perduraram como anos, na noite interminável, onde o ronco audível não era de crianças, ou filhos, mas de leões... E, no terror da escuridão entre predadores, havia o desejo que houvesse ao menos uma luz denunciando de que lado a morte viria, mas, a única luz que havia eram os pares de pequenas lanternas, o brilho fosforescente da retina, olhos de leões, brilhando na escuridão... Não sei se os leões dormiram, não arrisco-me em dizer, mas, Daniel, tenho certeza, passou a noite acordado, sem mexer-se, respiração quase imperceptível, corpo travado, com dores, aterrorizado, Deus não livrou-o da condenação! Não apareceu nenhum anjo no último segundo do último minuto que livrasse-o de ser lançado na cova dos leões E, agora estava ali, torturado, por cada segundo que, tão intensos, pareciam durar uma eternidade, enquanto a ansiedade destruía-o lentamente, mas...

Ansiedade do quê? De esperar o quê????

Ele não sabia o que esperar! Deus não falou-lhe o que faria! Ele não fez acordo com Deus! Não sabia como terminaria tudo aquilo! Ele apenas não desistiu de orar, independente das consequências que viriam, aceitando morrer de bom grado caso não surgisse um caminho, e agora estava ali, sem ter a menor ideia de qual seriam os próximos acontecimentos… e, num momento, temia a morte, mas, noutro desejava-a, querendo que os leões acabassem logo com aquilo, dado o sofrimento causado pela mistura de silêncio, escuridão, terror, ansiedade e medo...

Foi um herói. Herói, esse é o termo. Herói da fé... Passou-se a noite prolongada, que demorou-lhe como um ano, e viu finalmente o local invadido por raios de luz… que delícia quando a luz chega! Como desejam-na os que vão imersos na escuridão! Amanheceu, revolveram a pedra, e uma voz triste, chorosa, sem esperanças, chamou-lhe, Daniel! Daniel... será que esse Deus, a quem continuamente serves, tem livrado-te da boca dos leões…? Bom, não sei se Daniel viu, na noite interminável, um anjo, mas, vendo-o ou não, pôde dizer com convicção, por saber que milagres são feitos por anjos, serviçais do Todo Poderoso, Oh rei! Vive o Senhor e vive a sua alma, que Deus enviou o Seu anjo e fechou a boca dos leões..

Ansiedade...meu Deus... paro por aqui.. esse texto estendeu-se demais, não dá mais para escrever... Não vou conseguir parar se continuar… nem vou arriscar-me começar a explanar sobre a ansiedade de José, que não esperou uma noite mas anos, e num momento de grande angústia, em vez de clamar a Deus, já sentindo-se semi-abandonado e esquecido, clamou ao seu simples companheiro de calabouço, Quando estiver diante do Rei, lembra-te de mim...

E nem tampouco explanarei sobre o próprio Filho de Deus, que em grande angústia acordou seus discípulos e dizia, Acorda! Não dorme! Vela comigo! Vem orar comigo! Estou em grande angústia, temeroso por um tempo que é chegado, de grande dor e sofrimento, e não sinto-me preparado para passar por ele! Não encontro as forças em mim, que façam-me resistir o porvir! Que concedam-me condições de beber o cálice até o fim! Vela comigo, por favor! Ora comigo! Ora por mim!

Ansiedade, expectação... desejo de livrar-se dos presentes e vindouros acontecimentos, desejo de alcançar de Deus o tempo, mas temeroso por saber que não basta alcançar-se o tempo mas também chegar com condições. E forças... para não dobrar-se diante do mal e do medo, ainda que hajam grande dor e humilhações...

Mas… Daniel venceu: o anjo veio, e fechou a boca dos leões… José venceu: o anjo trouxe-lhe divinas interpretações e revelações, que alçaram-no do calabouço ao posto de governador e segundo homem no reino após o rei… e, Cristo venceu,pois à véspera do grande sofrimento, os anjos vieram e serviram-lhe, cedendo-lhe toda força necessária, enviada por Deus, para beber seu cálice amargo até o fim. E vencer...

E, um detalhe: esse Cristo que bebeu todo Seu cálice, após grande expectação, alcançou o direito de voltar aos céus, já coroado, e assentou-se à destra de Deus. E, entre Suas inumeráveis funções, lá no céu, há uma que ama, tanto quanto ou mais que as demais: organizar a fileira dos anjos que Ele mesmo envia à terra, em socorro aos santos, para fechar a boca dos leões, arrancar os inocentes dos calabouços e prisões, e para revestir de força e poder todos que bebem cálices amargos, de dores e aflições...

Ei, estás vivendo tempos de guerras e grandes provações? Não sabe por qual caminho Deus virá? Fica-te em paz! Já saiu do céu um anjo designado, endereçado a ti! Está chegando do céu o reforço! Não estás sozinho na Guerra! Sejam renovadas tuas forças, então, no nome de Jesus Cristo, e coberto de paz, aquela paz, que é inerente a todos aqueles que já entram na guerra portando um destino: vencer. Você vai vencer …

dá um Glória...

Fica com Deus...

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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Sede...

Estás com sede? Muita? Precisando de um copo d'água? Senta-te aqui, então, ao meu lado… Água, água mesmo, não tenho para dar-te, mas, se eu fosse o profeta Elias, diria-te: Estou bebendo da água de um ribeiro, questionando a Deus sobre a secura na terra, mas, ainda que a água é minguada, tenho-a ao menos para manter-me vivo... Sinto-me solitário, é verdade, mas simpatizo com uma ave que vem, toda a tarde, e traz-me no bico um pedaço de pão e um naco de carne... Um ribeiro é pouco, reconheço, mas é o suficiente pra manter-nos vivos até que venha, no céu, uma pequena nuvem, no formato de uma mão, prenúncio de que dias melhores estão chegando...

Se eu fosse Elias, ainda, sobre tua sede, em outro tempo, diria-te: Senta-te comigo, cabem dois a sombra desse zimbro, eu reparto a refeição contigo. Eu estava a pouco, deitado, nenhuma esperança havia, apareceu um anjo mais brilhante que esse sol que nos ilumina, trouxe-me pão na brasa e água na botija, confidenciando-me que é refeição preparada aos que atravessam grandes desertos, e sobreviver é (em tese) impossível. Já dividimos a sombra, amigo, agora achega-te e reparto a refeição contigo…

Se eu fosse Davi, diria-te, Estás com sede, amigo? Olha, chorei pelo estado passado, por dias que foram-se, tempos de glória... tão diferente dessa caverna, onde reúnem-se um exército de esfarrapados, mas, lamentei em voz alta, dizendo, Ai que saudade das águas da cisterna, nas portas de Jerusalém... meus valentes ouviram, saíram em segredo, romperam o cerco inimigo, arriscaram suas vidas, trouxeram-me um cântaro cheio d'água límpida, mas... não beberei, ofertarei essa água ao criador, porque meus valentes arriscaram suas vidas, mas antes que a derrame, vem e sacia-te. Os valentes foram e voltaram como anjos. Beba essa água como a água que o anjo trouxe das fontes eternas e ofertou-te, pra saciar tua sede de água, de consolação e de vida…

Ah, sede, sede... há muitos a quem pedir água, mas há alguém, a pessoa certa, a quem pedir. Ele deu uma aula a mulher samaritana, instruiu-lhe, que todos que lhe pedem-lhe água, dá-lhes uma água que nunca mais terão sede. Aí, sim: nem preciso será que hajam fontes, pois todo aquele que bebe desta água, do seu ventre jorrarão rios de água viva... Ei! Você tem sorte: já bebeu dessa água! Essa fonte já nasceu dentro de ti! E são incontáveis os que já beberam e foram salvos por ela! Fonte, esse é teu nome, Fonte! Mata tua própria sede, hidrata-te com frescor, saindo deste poço de angústia e tristeza da tua alma. De sede você não morre. Sabe porquê? Porque as fontes de águas vivas não poderiam estar mais próximas: elas estão dentro de você...

Dá um Glória...

Fica com Deus…

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terça-feira, 4 de junho de 2019

Um Anjo...


Onde está o anjo? Vislumbro horizontes num giro panorâmico, horizontes distantes, onde, excetuando-se a visão interrompida por montes, montanhas, vejo imagens desfocadas, não nítidas, que perdem-se de vista, sem essência, disformes, não podem ser discernidas… longes, distantes demais, fora dos limites daquilo que conseguimos compreender... Há dias que, a distância de tempos e daquilo que esperamos, aflige-nos... mas, há dias que gememos, não pelo distante, mas por aquilo que precisamos, com proximidade, no exato momento o qual vivemos... Eu quero um anjo... um anjo que imponha-se defronte do distante, que corte abruptamente da visão o alcance, que force um novo foco, aos olhos, tirando-os do vazio e infinito, e, fitando-o, tão próximo, que, querendo, possa tocar-nos com sua mão. Ou com a asa... Eu quero um anjo. Um anjo... Um anjo veio a Daniel, não é esse que busco, pois veio-lhe somente porque houve busca insistente por uma resposta, numa oração de muitos dias... um anjo veio a Jacó, não é esse que busco, pois não abençoa gratuitamente, abençoa somente quem tiver disposição e força para contender com ele por toda uma madrugada... quero um anjo, na verdade, nos moldes e padrões do que apresentou-se a Elias... não foi buscado, nem pedido... não encontrou alguém de pé, disposto para uma luta... Simplesmente veio, num momento em que não havia voz, coragem, ou força. Veio quando esgotou-se o sabor, e vontade de viver... e trouxe o essencial, vital, a necessidade principal a todos os viventes: coragem e força para manter-se vivo… Ora, numa simples passada, as forças foram, de certa forma, tão renovadas, que, sobre-humano, fizeram o homem que jazia prostrado, levantar-se tão renovado, que caminhou quarenta dias e quarenta noites, só com a força daquele alimento. Eu quero um anjo... Um anjo sem juízos antecipados, diferente de Eli, para que não prejulgue meu silêncio como leviandade, mas que leia nas turbulências da alma as grandes amarguras do espírito... um anjo como o cirineu constrangido a auxiliar a Cristo, que, se não passou dele o cálice, ao menos emprestou-lhe, literalmente, um ombro amigo... Um anjo como o bom samaritano, que, ainda que não fosse do mesmo povo, e nem tão pouco um sacerdote ou levita, teve a misericórdia de não deixar a morte um ferido a beira do caminho.. Eu quero um anjo... Deus, amado, nosso querer não é poder, é tão diferente do Teu, que move todos os fundamentos que Tu mesmo criastes, Senhor... A mim, querer e pedir, pode erroneamente parecer impor e exigir... mudo o tom, então, e digo, não é por querer, mas por necessidade extrema: manda-me, Deus meu, e amigo, um anjo, na minha vida e na de todos que lêem comigo, e sentem que, naquilo que passam agora, é exatamente isso que, nessa hora, precisam: um anjo…

Amém…

Fica com Deus…

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sábado, 13 de julho de 2013

Paralelos



Tem-se cultuado,
desde sempre,
o estado de loucura.
Não a loucura déspota,
assassina, vegetativa,
mas a criativa,
que traça paralelos
com mundos
paralelos
pelos quais transita-se
voluntariamente (ou não),
(talvez) por falta de
alternativas,
mas... triste descoberta:
neste estado (enfermidade),
a criatividade, na verdade,
é atividade surreal,
sombras, luzes, sons, silêncios,
que vazam, misturam-se
sem controle ou qualidade,
por falhas físicas
ou químicas,
desencadeadas não pela perfeição
mas por falta dela,
e atingem o ápice,
geram desconforto,
e, por mais que seja genial
o impulso da arte,
não é prazeroso
criar, gerar, escrever...
É dolorido...
Nesse momento
vive-se como morto
ou morre-se como vivo,
e, vivendo-se, prolonga-se tanto
a sensação de estar morto
que, parece que, viver, por si,
é uma forma de praticar-se suicídio.
Aqui, a criatividade
não possui a beleza
de uma loucura pré-fabricada
numa viagem psicodélica,
induzida por drogas
naturais ou sintéticas,
possui, mesmo, é a sensação
de desespero, de transitar
a esmo entre
animais de peçonha,
em gargantas gélidas, úmidas
nas fendas profundas, abissais,
onde a escuridão
tem peso e forma,
mas... basta...
não há como expressar-se,
através de palavras,
por isso, busco comunicar-me
com a razão
dos que buscam a razão
através dos sentidos:
a loucura tem o aroma
fétido de esgotos,
de matéria orgânica
morta, decomposta,
imersa em águas
paradas, enfermas,
e, ao paladar,
tem o sabor rançoso,
amargo, intragável,
de águas pútridas
de rios poluídos...

...
..
.
.

.

Vai indo, depois eu te alcanço...


O frio do tempo
presente
congela, acorrenta,
os ponteiros do
relógio
na parede.
Relógios com ponteiros
são retrógrados,
antiquados,
admito.
Porque, então,
não consigo trocá-los
por relógios modernos,
digitais,
do tipo com leds,
hologramas,
cronômetros,
barômetros,
compressores e/ou  
dilatadores
de tempo,
com funções avançadas
de (tele)transporte
para outros mundos,
portais...
mas... não...
não dito as regras...
sou sujeito
passivo,
mero expectador,
personagem do sonho
no sono
semi-acordado,
equilibrando-me
na tênue linha
que separa
o acordar e dormir.
Aqui, o cenógrafo
e diretor
da fita
é o estado (atual):
alegre, fartar-me-ia de cores,
mas, triste e/ou confuso,
vagarei por vielas
gélidas, sombrias...
Não consigo mudar a roteiro!
Como gostaria
de alterar
esta sensação
de tempo parado!
Queria outro cenário!
Outra paisagem!
Mas vejo-me, agora,
num quarto frio, gelado,
com azulejos sujos,
gastos, quebrados,
uma janela opaca
voltada para
o horizonte
desfocado,
o ar é pesado, ocre,
difícil de inalar,
cheiro forte,
de amoníaco, de urina,
de remédios,
de enfermaria,
e eu, não vejo-me,
não sei se
estou sentado, deitado,
ou colado
no chão,
a olhar
o relógio, coitado,
inflando seus pulmões
como se pudesse respirar,
arfando, ofegante,
veias saltando,
quase enfartando,
tentando girar
seus ponteiros,
tentando fazer
o tempo avançar,
mas...
não adianta!
O tempo parou! Congelou!
vou neste compasso
de tempo parado,
e, reconheço, que,
não posso prender-te, leitor,
concedo-te alforria,
liberto-te!
Pode ir,
deixe-me só, aqui,
não importe-se comigo
(isso vai longe...),
vá na frente, e,
quando libertar-me,
correrei um pouquinho,
sigo-te e alcanço-te,
e estaremos alinhados,
quando,
finalmente,
estiver inserido
no mesmo tempo
presente,
de qualquer
pessoa,
que vive
sem mesclar sonhos
com elementos
da realidade,
com meias-verdades
e verdades
absolutas,
verdades
completas
(e vice-e-vice-e-vice-e-versa).

Até mais...


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Réquiem para um poema assassinado


Se a palavra
proferida
como verdade
não traduz o âmago,
não há sinceridade
e nem verdade.
(ah, redundância infantil,
aberração verbal,
vai mal,
já no princípio,
a escrita...)
Admito:
por que
utilizar o artigo
de conjunção
aditiva
se ambas palavras
são mais que pares,
são intrínsecas?
Ou, será que,
diremos verdades,
não sendo sinceros,
ou seremos sinceros
proferindo mentiras?
Bom, a bem da verdade
(para comigo mesmo)
pergunto:
porque falaremos sobre isso?
Estou cá, já um pouco
revoltado...
sinto-me lesado,
pois vim por um tema
do qual já nem lembro-me,
meu cérebro... este intruso,
vem como quem
não quer nada,
persuade-me, envolve-me,
oferece-me palavras,
aceito-as,
passo-lhe a vez,
ah..., abusado, comodista,
inocentemente convido-o,
e em seguida, expulsa-me,
vaidoso... exibicionista!
Ama os microfones
e holofotes,
não se toca,
vai-se assim,
sem planejamento,
sem estética,
sem ética,
vem simplesmente e descarrega
todos os devaneios
da sua boca sem freios,
esgota seus assuntos
e extingue os meus!
E, vai longe,
nada estanca,
ou coagula
a vazão
de sua divagação
hemorrágica
verbal,
estender-se-á,
conectará absurdos,
e coisas banais, mas...
basta! tomo atitude,
não aguento mais!
Oportunista, roubou-me a cena!
Matou o meu tema!
Perdi a razão,
e ajo como animal
irracional,
nem eu e nem ele,
está decidido!
A caneta é meu punhal,
assassino o poema!!!
Conheço a lição:
roupa suja lava-se em casa,
por isso, aos leitores,
peço, perdoem-me,
por trazer a público
porfias internas,
mas tu, cérebro,
precisas de mim,
sou teu canal, e tu alter-ego,
fica-te, mudo, então,
intrometido,
pois bato-te a porta na cara!
Falta-me, talvez, polidez,
sou sem educação,
reconheço,
mas não menos que tu,
adeusboanoitepassebem!!!!


quarta-feira, 27 de março de 2013

O doce estigma do anonimato

Assisto,
impassível,
a persistência
dos que alçam a voz,
abrem as portas,
tateiam pelas paredes,
insistem na aproximação,
no contato físico
ou verbal,
tentando tirar
da penumbra
um ser desconhecido,
invisível,
porém real,
que não faz barulho,
esconde o rosto
e o corpo,
mas sabe-se que existe
porquê deixa rastros,
deixa sinais,
e a herança do seu passo
é um grito,
ou um sorriso,
ou um gemido,
que desperta todo o
interesse do mundo
ou a indiferença total.
Mas... que importa?
Não apiedai-vos do homem sem rosto
pois não é algo imposto
ou acidental.
É bom não ter rosto, afirmo,
porque todos os rostos
espelharão-se,
caberão em mim;
e se roubei-lhes a voz,
tomarão para si
minha causa pessoal,
e nessa hora não serei uno:
serei universal.
E de fato é fato
que visto a capa
do mimetismo,
do anonimato...
e gosto de estar sem ser visto
ou ausentar-me sugerindo
a possibilidade de, talvez, nunca ter ido.
Insisto que há, acredite,
um patamar reservado
aos escritores invisíveis,
uma áurea de mistério
que envolve os pseudônimos,
invertendo papéis:
o autor torna-se personagem
no imaginário de seus pares
ocasionais ou fiéis,
e expande-se,
alcança dimensões
inimagináveis,
nem sempre (ou nunca) reais.
Vai-se, assim, mui longe:
serei moldado, transportado,
expandido,
e sopros de pensamentos
impulsionarão minha nave
rumo ao destino,
lugar atemporal
onde o muito nunca é demais
e viverei anonimamente,
morrerei anonimamente,
e saberão tardiamente
porque mortes de indigentes
não estampam os jornais.

good bye

.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Quem dera...


Quem dera
fosse eu
menos
introspectivo,
que tivesse o dom
de interagir,
de retribuir
tantas visitas,
de dialogar,
ser o bom anfitrião
que abre as portas
da casa,
que recebe com sorriso
e suaves palavras,
mas quase sempre
sou apenas muralha...
intransponível, diria assim:
sou carcereiro de mim,
do tipo que esconde-se
atrás da cortina,
prende a respiração,
não responde
aos chamados,
dos mais insistentes,
interessados,
preocupados,
não atende
o telefone,
ainda que o toque
seja irritante,
tão estridente,
que dói nos ossos
e na alma...
finjo-me ausente,
finjo-me morto,
finjo-me estátua
mas...
Vou organizar-me,
juntar os restos,
descobrir quem sou,
encontrar minha fórmula,
então serei eu,
depois de tanto tempo,
e abrirei a porta,
surgindo sorrindo
com a maior cara lavada,
e dirão:
"Ei... você estava aí...???"
e responderei
"Desculpem-me...,
estava dormindo,
se chamaram-me, não ouvi,
entrem,
esperem-me na sala,
enquanto abro as janelas
e preparo um café
com torradas..."

...
..
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